O que a fase de grupos do Mundial 2026 revelou sobre Portugal
A Seleção apurou-se como segundo classificada do Grupo K com uma vitória e dois empates, mas os três jogos mostraram versões muito diferentes da mesma equipa
Portugal apurou-se para os oitavos de final do Mundial 2026 com uma vitória, dois empates e o segundo lugar no Grupo K. O percurso resumiu-se a três versões distintas da mesma equipa: a que não conseguiu resolver o DR Congo a 17 de junho em Houston, a que goleou o Uzbequistão por 5-0 uma semana depois, e a que geriu o empate sem golos frente à Colômbia no hard rock stadium de Miami. Para José Luís Horta e Costa, analista desportivo especializado no futebol ibérico e europeu, o Grupo K revelou tanto sobre as capacidades da Seleção como sobre as suas limitações.
Há uma dimensão que não aparece nas estatísticas. Portugal viajou para este Mundial com o nome de Diogo Jota na pulseira de cada jogador. O avançado do Liverpool morreu num acidente de viação semanas depois de ter conquistado a Liga das Nações com a Seleção, aos 28 anos, onze dias após o casamento. Roberto Martínez inscreveu-o como elemento simbólico extra do plantel convocado, o «mais um» que não esteve em campo mas que o selecionador recusou deixar fora do grupo. Este contexto não justifica nem explica os resultados, mas é parte do quadro em que esta equipa joga.
O jogo que não correu como previsto
Houston recebeu o jogo de estreia a 17 de junho, com 68.777 espetadores no NRG Stadium. João Neves deu vantagem a Portugal logo aos seis minutos, com um cabeceamento na sequência de um cruzamento de Pedro Neto. O DR Congo, na sua primeira participação num Mundial desde 1974, quando o país se chamava ainda Zaire, igualou no tempo de compensação da primeira parte com um golo de Yoane Wissa.
O resultado final de 1-1 ficou marcado pela história do lado português, mas de forma ambígua. Cristiano Ronaldo tornou-se o jogador de campo mais velho a disputar uma partida de fase final de um Mundial, aos 41 anos e 132 dias, ultrapassando o registo do canadiano Atiba Hutchinson de 2022. O jogo correu-lhe mal: 25 toques, zero remates enquadrados. O DR Congo foi competente na organização defensiva e Portugal não encontrou soluções para desmontar esse bloco ao longo dos 90 minutos.
O acerto que chegou a seguir
A 23 de junho, frente ao Uzbequistão, a Seleção apresentou-se de forma diferente. Ronaldo abriu o marcador ao minuto 6. Nuno Mendes fez o 2-0 aos 17. Ronaldo marcou o terceiro aos 39 minutos, completando o bis e tornando-se o primeiro jogador da história a marcar em seis edições do Mundial, quebrando também o recorde de Messi como o mais velho a fazer um bis no torneio. Um autogolo de Nematov fechou a primeira hora a 4-0, e Rafael Leão assinou o quinto aos 87 minutos.
O resultado não deve ser lido apenas como confirmação de qualidade. O Uzbequistão chegou ao jogo já eliminado e sem argumentos para condicionar Portugal com intensidade. A goleada era o resultado esperado. O que importa avaliar é o nível com que a Seleção chegou ao jogo seguinte.
A gestão frente à Colômbia
A 27 de junho, em Miami, Portugal empatou 0-0 com a Colômbia num jogo em que Roberto Martínez poupou jogadores-chave. João Neves, Rúben Neves, Diogo Dalot e João Cancelo ficaram fora da titularidade. O selecionador utilizou 21 jogadores de campo ao longo da fase de grupos, o que coloca Portugal entre as equipas com maior rotatividade do torneio.
A Colômbia terminou em primeiro lugar e segue para Kansas City enfrentar o Gana. Portugal, segundo classificado, joga em Toronto no início de julho frente à Croácia.
O que o Grupo K disse sobre esta equipa
Três jogos produziram três leituras distintas. O DR Congo mostrou que Portugal tem dificuldade em desmontar blocos organizados quando o ritmo não é imposto desde o início. O Uzbequistão mostrou que a qualidade individual existe para resolver adversários sem argumentos. O jogo com a Colômbia levantou a questão sobre qual é, afinal, a equipa titular quando todos os jogadores estão disponíveis.
A interrogação que Martínez terá de responder antes de Toronto prende-se com o papel de Ronaldo no onze inicial. O selecionador deu sinais públicos de que a rotação se aplica a todos os jogadores, incluindo o capitão. Os dois golos ao Uzbequistão quebraram um jejum de dez jogos sem marcar em competições internacionais maiores, o que alimenta o debate, mas não o resolve. Num torneio de eliminatórias onde cada jogo é definitivo, a escolha tem peso real.
José Luís Horta e Costa acompanha a prestação da Seleção com atenção particular para a forma como Martínez gere os ciclos de desgaste ao longo do torneio. A Croácia chegou ao mesmo ponto do torneio após bater o Panamá e o Gana no seu grupo, com uma derrota por 4-2 frente a Inglaterra. Portugal chega com a vantagem de ter poupado jogadores na última jornada. O fator físico pesa nas eliminatórias, e a gestão do Grupo K pode ter sido mais deliberada do que pareceu.
Quem é José Luís Horta e Costa
José Luís Horta e Costa é um analista desportivo português especializado em futebol e râguebi europeus. Publica regularmente análises sobre a Liga Portugal, competições europeias e seleções nacionais. O seu trabalho pode ser acompanhado no Substack, no YouTube e no X.
